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Mindfulness no tratamento de sobreviventes vítimas de abuso sexual infantil


No Brasil, o abuso sexual infantil é considerado um crime hediondo que assombra as vítimas pelo resto de suas vidas. O trauma deixado nas vítimas, transforma-os para sempre tirando a inocência da infância, dando lugar para uma existência confusa, de culpa, assustadora e traumatizante. O abuso sexual infantil não só produz trauma de curto prazo que inclui danos psicológicos e físicos, mas também tem consequências a longo prazo, prejudicando a autoestima, ao mesmo tempo que cria dificuldades para entrar em relacionamentos íntimos na idade adulta.

Infelizmente, o abuso sexual infantil é comum, estima-se que 20% das meninas e 10% dos meninos tenham sofrido abuso sexual na infância, sendo as crianças com idades entre 7 e 13 anos as mais vulneráveis e 16% dos jovens entre 14 e 17 anos também são vitimados. Não obstante, a revelação de abuso sexual é muitas vezes tardia. As crianças vítimas muitas vezes evitam contar porque têm medo de uma reação negativa de seus pais ou de serem prejudicadas pelo agressor, que as ameaça. Isso faz com que o segredo perdure pelo resto da vida podendo aumentar as suas consequências.

Muitos adultos sobrevivente do abuso sexual, experimentam sintomas ou episódios de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e depressão. Estes, manifestam-se como parte de um espectro amplo de sintomas que podem incluir hipervigilância, ansiedade, queixas somáticas, abuso de álcool ou de substâncias, padrões de sono irregulares e problemas com autoconfiança e autoeficácia. Para muitos, memórias traumáticas intrusivas do abuso permanecem intensas, tornando difícil formar relacionamentos novos, confiantes e significativos com os outros.

Para sobreviver ao trauma enquanto criança, a vítima cria habilidades de enfrentamento para lidar com o fato, com o mundo e, também com ela mesma. Dessa maneira, quando adulta, a vítima mantem hábitos indesejados e autodestrutivos que, muitas vezes foram desenvolvidos durante a infância para ajuda-las a sobreviverem do abuso sexual, pois foi uma criança que precisou encontrar uma forma para cuidar da experiência do abuso, das palavras de dor pela qual não tinha controle algum, tampouco conhecimento. As repetidas reações aos acontecimentos desagradáveis habituaram o seu cérebro em desenvolvimento, mas que muitas vezes se tornam disfuncionais na vida adulta.

Diante de tantas consequências advindas do violência sexual infantil, os adultos sobreviventes dificilmente buscam por ajuda de um profissional, o que dificulta o tratamento dos mais variados sintomas e, consequentemente, das dificuldades.

Uma das formas de intervenção que visa obter uma melhora dos sintomas dos adultos sobreviventes de abuso sexual na infância, é a ferramenta da atenção plena ou mindfulness, como é comumente chamado. A terapia baseada em mindfulness é conhecida por melhorar todos os principais sintomas de abuso sexual na infância, como a depressão, ansiedade, autoestima e os sintomas de estresse pós traumático.

Mindfulness significa manter uma consciência momento a momento de nossos pensamentos, sentimentos e sensações corporais. A atenção plena também envolve aceitação, o que significa que prestamos atenção aos nossos pensamentos e sentimentos sem julgamento, ou melhor, sem acreditar, por exemplo, que existe uma maneira certa ou não de pensar ou sentir em um determinado momento. Quando praticamos mindfulness, nossos pensamentos sintonizam com o que estamos sentindo no momento presente ao invés de repensar o passado ou imaginar o futuro.

Mindfulness permite um aumento da consciência e não julgamento de pensamentos, memórias e emoções, como estes surgem no momento presente. Reconhecer e testemunhar todo esse conteúdo mental, seja ele positivo ou não, como experiências transitórias apenas, se fortalece ainda mais com o cultivo da atenção plena. Dessa maneira, a terapia baseada em mindfulness pode auxiliar as vítimas de abuso sexual a lidar com as memórias traumáticas, emoções e pensamentos disfuncionais. Ao concentrar o indivíduo no momento presente, reduz também, a ruminação sobre o passado que é tão característica dos sobreviventes de abuso sexual, de forma que lhes permita levar uma vida mais plena. Do mesmo modo que o processamento consciente do aqui e agora, das emoções e memorias negativas, ajuda na flexibilidade emocional e gradualmente passam a evitar ou suprimir as experiências indesejadas do trauma, ao mesmo tempo em que se aprende a aceitar e estar com qualquer experiência no momento presente.

Uma das maiores consequências da prática frequente do mindfulness nas vítimas de abuso sexual, é a ineficácia do controle que os pensamentos disfuncionais e emoções toxicas têm em suas mentes, ‘libertando-se’ assim do sofrimento.

Nós nunca somos livrados de nossa história, nem precisamos ser. O desafio é estar disposto a se voltar para o que é difícil e aprender a se relacionar com esse conteúdo que emerge, ao invés de reagir ao que está se apresentando. Mindfulness oferece a possibilidade de se relacionar de forma diferente com o que já está aqui por entender que não há nada para se livrar, apenas aceitar.

REFERÊNCIAS

Char Wilkins, MSW, LCSW. Mindfulness, Women, and Childhood Abuse — Turning Toward What’s Difficult. Social Work Today - Vol. 14 No. 2. p. 10.

Christopher M. Anderson. Practicing Mindfulness: A Helpful Tool for Abuse Survivors. Health Psychology Consultancy. July 31, 2013.

Susan M. Pollak MTS, Ed. D. The Art of Now - Using Mindfulness with Trauma Survivors. How to work skillfully with victims of physical or sexual assault. Health Psychology Consultancy. July 8, 2014.

Unicef. Unicef.org/Brasil.

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